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Fórum da Biodiversidade

Profissionais de diferentes áreas expõem aqui as suas opiniões sobre o tema da biodiversidade, a partir de perguntas colocadas pelo PÚBLICO

03-11-2010

O que é que um cidadão pode fazer para ajudar a preservar a biodiversidade?

Jorge PalmeirimBiólogo, investigador do Centro de Biologia Ambiental (CBA) da Universidade de Lisboa

A Biodiversidade do planeta é de tal maneira grandiosa que não é de surpreender que muitos de nós receiem ser demasiado insignificantes para poder contribuir de forma relevante para a sua preservação. Mas os numerosos sucessos do envolvimento de cidadãos nesta área provam o contrário...

A forma de actuar de cada um varia naturalmente muito com sua motivação e com as circunstâncias, mas há um lugar para todos neste processo de salvaguarda da Biodiversidade.

Na linha da frente da conservação estão naturalmente os cidadãos proprietários de terras que albergam biodiversidade. Das suas decisões, mais ou menos ambientalmente amigáveis, podem depender enormes valores naturais. A melhor contribuição que podem dar é fazer um esforço para compatibilizar a exploração da terra com a manutenção desses valores.

Mesmo os cidadãos que vivem longe da terra podem ter um papel muito positivo na conservação da biodiversidade, agindo através do seu consumo. Ao optar por produtos devidamente certificados podemos minimizar o impacto negativo do consumo, ou até transformá-lo numa ferramenta de conservação. Por exemplo, comprando madeira ou alimentos certificados estamos a apoiar os produtores ambientalmente mais amigáveis.

As férias constituem outra grande oportunidade para contribuir para a conservação da biodiversidade. Visitando áreas naturais protegidas, estamos a gerar um estímulo económico que em algumas regiões do globo é já o principal motor da conservação.

Finalmente, é também importante tirarmos partido dos direitos que temos como cidadãos para garantir políticas públicas, nacionais e internacionais, que defendam a biodiversidade. Os decisores públicos são nossos funcionários, pagos com os nossos impostos, pelo que têm a obrigação de defender os interesses e bens colectivos, incluindo a biodiversidade. Nem sempre é fácil ao cidadão isolado fazer-se ouvir pelos seus políticos, pelo que a melhor forma de cada um colaborar neste processo é apoiando, com recursos ou trabalho, associações de cidadãos que pugnem pela conservação da biodiversidade. Os fantásticos resultados obtidos por algumas destas associações nas suas diferentes formas de actuação são a prova de que sabem usar bem o nosso apoio…

Henrique PereiraEcólogo, investigador do Centro de Biologia Ambiental (CBA) da Universidade de Lisboa

Os cidadãos podem contribuir para preservar a biodiversidade, nas suas decisões como empresários, proprietários ou consumidores.

Os empresários devem tentar perceber como é que a actividade da sua empresa pode ser enriquecida protegendo a biodiversidade ou minimizando os impactes na biodiversidade. Por exemplo, um empresário pode apostar em áreas de negócio emergentes associadas à biodiversidade, como são os os usos múltiplos da cortiça, ou as muitas oportunidades que existem na fileira florestal do carvalho (que é hoje praticamente inexistente em Portugal).

Um produtor agrícola pode modificar as suas práticas por forma a favorecer a biodiversidade, seja pela escolha da altura adequada para a mobilização do solo ou a ceifa em relação à época de nidificação, pelo uso moderado de pesticidas e adubos, ou pela manutenção de sebes vivas e pequenos bosquetes na bordadura dos campos.

O grande proprietário pode criar mini-reservas naturais nos seus terrenos, que sirvam como refúgio para espécies raras ou ameaçadas, e pode até associar um projecto de turismo de natureza a essa iniciativa. O pequeno proprietário florestal pode optar por apostar em favorecer a diversidade de espécies de árvores nos seus terrenos, plantando por exemplo carvalho-alvarinho, carvalho-negral ou carvalho-cerquinho.

O caçador pode optar por caçar apenas as espécies claramente abundantes, e trocar a caçadeira pela máquina fotográfica para as espécies raras.

E todos nós temos uma palavra a dizer, seja por exemplo a escolher carne de produção animal associada a sistemas biodiversos como o porco-preto ou a Barrosã (e idealmente até reduzindo a percentagem de carne na nossa dieta), seja a poupar electricidade para aumentar a nossa eficiência energética (diminuindo a necessidade de novas barragens), seja a usufruir dos nossos espaços naturais através de caminhadas e outras actividades de recreio que contribuem para a valorização económica e política desses locais, e até como voluntário em actividades de restauração ecológica ou numa organização não governamental de ambiente, ou ainda participando activamente nos processos de discussão pública de planos de ordenamento e avaliações de impacte ambiental.

E por fim, um dos maiores poderes dos cidadãos é a possibilidade de votar em propostas políticas que ponham as questões da conservação da biodiversidade no topo da agenda.

Alexandra CunhaBióloga no Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve e presidente da LPN

Doze maneiras de ajudar a biodiversidade

1. Familiarize-se com o tema biodiversidade e qual a sua dependência dela.

2. Conheça a biodiversidade do seu país e as principais ameaças à sua preservação.

3. Faça-se sócio de uma associação ambiental regional, nacional ou internacional e tenha um papel activo na associação. Todas as pessoas podem contribuir!

4. Envolva-se em campanhas de promoção e conservação da biodiversidade (e.g. hortas urbanas, agricultura biológica, Plantar Portugal, Biodiversity 4all, ADOPTE, FindKelp)

5. Assine as petições sobre protecção ambiental (exemplo: Empower) e exija mais trabalho e transparência aos institutos e ministérios com obrigações na matéria da protecção da biodiversidade.

6. Exija maior divulgação da parte dos institutos públicos e centros de investigação dos trabalhos científicos e técnicos sobre biodiversidade.

7. Promova as boas práticas florestais, agrícolas e pesqueiras e consumir “justo” (ex. www.quepeixecomer.lpn.pt)

8. Participe nas discussões públicas de projectos com impactos nos ecossistemas.

9. Escreva artigos para blogs (ou criar um), FB, twitter, jornais e revistas sobre a protecção do ambiente e divulgação de acções.

10. Opte por um estilo de vida equilibrado do ponto de vista do consumo dos recursos naturais – pensar para cada acção do dia-a-dia, o que fazer para tornar a sua pegada planetária menor.

11. Faça férias com pequeno impacto na natureza (ecoturismo) e informar-se e promover a biodiversidade local.

12. Não seja indiferente, nem pense que não pode fazer nada!

Henrique Pereira dos SantosArquitecto paisagista, consultor e ex-vice-presidente do ICNB

O que pode ser feito de mais eficaz para a conservação da biodiversidade, por uma pessoa isolada, é olhar para o que come.

É compreender a forma como o que come é produzido e fazer opções que sejam mais sustentáveis em termos gerais e mais produtoras de biodiversidade.

Uma coisa é comer um queijo bola, produzido com leite vindo não se sabe de onde, mas seguramente a partir de vacas estabuladas alimentadas com rações obtidas a partir da agricultura intensiva de cereais, algures no mundo. Outra coisa é comer um queijo de ovelha, ou de cabra, vindo de um rebanho que faz a gestão de áreas relevantes para a conservação da natureza, por exemplo, em serras com elevados valores naturais.

Da mesma forma, uma coisa é usar um azeite que vem de uma olival super-intensivo, outra é usar um azeite de olivais tradicionais que apoiam a gestão de mosaicos agrícolas favoráveis à presença de um elevado número de espécies, algumas com estatutos de ameaça importantes.

A questão não é dividir os alimentos em bons ou maus, a questão é olhar para o que se come e conscientemente aumentar a quantidade de produtos que provêem de sistemas agrícolas e de pastoreio que são ricos em biodiversidade, contribuindo para a sua viabilidade económica.

Esse é um contributo formidável que pode ir sendo dado por cada um para a conservação da biodiversidade, em especial em áreas em que as actividades económicas e os valores naturais se misturam nos mesmos espaços, como é o caso do Mediterrâneo.”

Susana FonsecaSocióloga, presidente da Quercus-Associação Nacional para a Conservação da Natureza

Pensar sobre como podem os cidadãos, em suma, cada um de nós, contribuir para a promoção da biodiversidade acaba por ser um tema complexo, uma vez que as principais ameaças à biodiversidade decorrem de muitas das nossas actividades quotidianas e dos recursos necessários para o seu desenvolvimento.

É sabido que um dos grandes impactes negativos sobre a diversidade decorre da destruição de áreas naturais para exploração de recursos ou para uso na produção de recursos que alimentam os nossos padrões de consumo. Assim, um dos primeiros conselhos de carácter mais genérico que é possível sugerir é a moderação do consumo num sentido lato. Reduzir, reutilizar e reciclar são máximas que dão um contributo significativo na redução da pressão sobre áreas naturais.

Outra proposta passa por privilegiar produtos de agricultura biológica. Esta forma de produzir alimentos usa a biodiversidade a seu favor (utilizando-a para equilibrar pragas, por exemplo), para além de reduzir em muito outros impactos negativos da agricultura convencional como são, por exemplo, a poluição hídrica ou o empobrecimento do solo.

Existe ainda a possibilidade de apoiar iniciativas que procurem promover a biodiversidade, nomeadamente as desenvolvidas por ONG. Decisões tão simples como, por exemplo, escolher o local onde irão passar as suas férias podem ter um papel relevante. Ao optar por fazer férias em zonas ricas em termos de biodiversidade, há a possibilidade de aumentar o seu conhecimento sobre o tema (é comum dizer-se que só se ama o que se conhece), mas também é uma forma de apoiar essas zonas permitindo o desenvolvimento de actividades de mais baixo impacto e que possam potenciar a fixação das populações.

Manter-se informado sobre as ferramentas à sua disposição para poder ser mais criterioso nas suas escolhas quotidianas, é outro dos caminhos. A proposta é a de explorar as potencialidades de ferramentas como o rótulo ecológico europeu, como os sistemas de certificação florestal, o comércio justo, etc. Podem não ser perfeitos, mas são um instrumento interessante de simplificação da informação para que os não especialistas possam tomar decisões mais informadas.

No contexto português, um dos grandes constrangimentos acaba por ser o desordenamento do território. Neste contexto, uma outra boa dica para proteger a biodiversidade passa por evitar comprar casa ou ir de férias para locais que resultam de desafectação de zonas classificadas (Reserva Ecológica Nacional, Reserva Agrícola Nacional, Rede Natura) e sofreu uma desafectação.

Em suma, são muitas as possibilidades de agir. A biodiversidade está omnipresente no nosso quotidiano, seja de forma explícita, seja de forma implícita. É por isso fundamental estar atento e interessado para que seja possível aproveitar todas as oportunidades para reduzir a pressão negativo sobre este magnífico e fundamental património.

Helena FreitasBióloga do Departamento de Ciências da Vida, directora do Jardim Botânico da Univ. de Coimbra

Um promissor contexto político internacional criado recentemente em Nagoya, que no essencial recupera e reforça os grandes objectivos da Convenção do Rio - a conservação da diversidade biológica, o seu uso sustentável e a divisão justa e equitativa dos benefícios obtidos pela utilização dos recursos genéticos – sustentará finalmente compromissos efectivos e metas a atingir ao longo de uma década.

Um importante passo para a implementação destes objectivos é a criação do IPBES, um painel de natureza intergovernamental que garante a avaliação periódica e a mobilização regular da comunidade científica e da opinião pública para a construção de objectivos comuns, tornando a ciência mais eficaz em termos de impacto político e consequente promoção das melhores politicas de conservação da biodiversidade. Representa uma interface política e científica que garante ao cidadão informação disponível regularmente, com qualidade e isenção, comprometendo-o no processo de avaliação e decisão. Estes novos mecanismos acabarão por legitimar e capacitar a intervenção do cidadão no sentido de reivindicar políticas nacionais mais credíveis no domínio da Conservação da Natureza e da Biodiversidade.

Por outro lado, a identidade e o valor intrínseco da biodiversidade continuarão - desejavelmente - a ser base da educação ambiental em biodiversidade, privilegiando o valor da relação afectiva e a importância do equilíbrio ecológico que consagra a coexistência de todos os seres vivos. Esta consciência ecológica e a percepção pública sobre a actual extinção acelerada de espécies à escala planetária, despertam a noção do risco da perda biodiversidade e das funções ecológicas para a sobrevivência do próprio Homem.

Configura-se, assim, um contexto em que o cidadão se sente cada vez mais parte de um todo funcional, o que, na minha opinião, o tornará naturalmente mais implicado e empenhado na preservação da biodiversidade à escala local, regional e global.

João SoaresEngenheiro agrónomo, assessor para a floresta e ambiente do grupo Portucel-Soporcel

A recente aprovação, em Nagoya, de uma nova estratégia internacional para a biodiversidade é uma notícia positiva que deve estimular pessoas e organizações preocupadas com o tema.

E digo ”pessoas e organizações preocupadas com o tema” porque acredito no papel das minorias.

De facto, sendo ainda hoje uma minoria os que se preocupam com a biodiversidade (no “oceano” humano de quase 7 mil milhões de indivíduos) é deles que se espera a motivação e o estímulo para a alteração dos actuais paradigmas de crescimento que impactam a biodiversidade.

A população mundial é, e será cada vez mais, urbana; importa pois que o “afastamento do mundo natural” que daí decorre seja suprido por políticas nacionais lógicas e inequívocas em defesa da biodiversidade.

Do cidadão espera-se que perceba as razões da necessidade de conservar a biodiversidade e, depois, que funcione como elemento catalisador dos grupos onde se insere.

Até hoje as respostas governamentais e das políticas para a gestão e conservação da biodiversidade têm sido frequentemente compartimentadas e limitadas por pressões políticas localizadas e de curto prazo, carecendo do grau de compromisso necessário para uma mudança significativa.

Para que tal se altere, é necessário que os governos saibam – sem panfletarismo – o que estão a fazer e quais os aliados que têm de procurar. E nesses aliados cabem, sem margem para dúvidas, as empresas e os empresários, se, e só se, os governos implementarem as políticas e os incentivos adequados.

Pessoalmente, julgo que o objectivo do “alto desenvolvimento humano com baixo impacte ambiental” não vai ser conseguido pelas pessoas que estiveram em Nagoya. Vai ser, antes, necessário convencer “os chefes” dessa gente …

E vai ser necessário fazê-lo num ambiente económico e financeiro de cada vez maior incerteza e num mundo (ainda) em explosão demográfica.

Daí que ao cidadão comum caiba o papel de se esclarecer – e os “média” têm aí uma importância decisiva – no sentido de avalisar intervenções imediatas, (eventualmente radicais), coordenadas a muitos níveis, por múltiplos parceiros.

É que se não é admissível que meia dúzia de “iluminados” queiram impor uma solução à maioria, não é igualmente aceitável que uma maioria ignorante e/ou ”distraída” impeça as mudanças que se impõem.

Dilema difícil em democracia, do qual a conservação da biodiversidade corre o risco – mais uma vez – de sair a perder …

PS: Aconselho vivamente a leitura da “Visão 2050” recentemente traduzida pelo BCSD – Portugal e disponível no seu site (onde recolhi algumas ideias para o presente texto).