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Fórum da Biodiversidade

Profissionais de diferentes áreas expõem aqui as suas opiniões sobre o tema da biodiversidade, a partir de perguntas colocadas pelo PÚBLICO

01-02-2011

É importante apostar na investigação para a descoberta de novas espécies em Portugal?

Jorge PalmeirimBiólogo, investigador do Centro de Biologia Ambiental (CBA) da Universidade de Lisboa

Quando a Europa se abriu ao Mundo, particularmente com as grandes explorações iniciadas pelos navegadores portugueses, chegaram ao velho continente animais e plantas fantásticos e relatos fascinantes de ecossistemas exóticos que albergavam uma enorme biodiversidade.

O interesse que isso despertou levou a que durante os séculos seguintes gerações de naturalistas se tenham dedicado principalmente à tarefa de identificar e classificar os milhões de espécies que povoam o nosso planeta, uma área da biologia designada por Taxonomia.

Apenas no século XX se tornou claro que era importante não só fazer este trabalho de classificação mas também obter o conhecimento necessário para compatibilizar a preservação da Biodiversidade com a explosão da população humana. Consequentemente, o trabalho dos investigadores diversificou-se enormemente, passando a incluir áreas como o estudo do funcionamento dos ecossistemas naturais e humanizados, a racionalização dos usos da Biodiversidade pelo Homem e as técnicas de gestão dos ecossistemas.

Este enriquecimento em áreas de investigação, que teve também lugar em Portugal, foi infelizmente acompanhado de uma perda de prestígio e financiamento para a Taxonomia, um problema grave porque a maior parte das espécies do planeta estão por descobrir e descrever. De facto, mesmo na Europa há ainda bastantes espécies desconhecidas, particularmente entre os organismos mais pequenos, uma situação confirmada pela incessante descrição de novas espécies em Portugal. Mesmo entre os animais vertebrados, como os mamíferos e as aves, continuam a ser reveladas novas espécies na Europa, graças a técnicas de biologia molecular que nos permitem analisar directamente os genes dos organismos.

As espécies que estão ainda por descobrir, principalmente nas regiões tropicais mas também na Europa, são naturalmente uma parte importante da biodiversidade. Em muitos casos elas sobreviverão à pressão humana, pois apesar de desconhecidas beneficiam de medidas de conservação geral, como a preservação de áreas de habitats naturais. Há no entanto espécies, particularmente as que têm distribuição geográfica reduzida, que apenas sobreviverão se forem alvo de medidas de conservação específicas, só possíveis se forem descobertas pelos taxonomistas atempadamente.

A morosa busca de novas espécies e sua classificação é assim uma tarefa necessária não só para melhor conhecermos a fascinante diversidade de vida na Terra mas também para a podermos preservar. É portanto fundamental persistir nesta área de investigação, compatibilizando-a com outras importantes vertentes do estudo da Biodiversidade, como a Ecologia.

Susana FonsecaSocióloga, presidente da associação ambientalista Quercus

A área da conservação da natureza foi, durante muitos anos, altamente deficitária em fundos que permitissem intervir e investigar sobre o nosso património em termos de biodiversidade, quais as principais ameaças e quais os melhores caminhos para a potenciar.

Nos últimos anos, com a iniciativa Business and Biodiversity, o panorama mudou um pouco, mas não ainda de forma marcada que nos permitisse reduzir, de forma significativa, o atraso que apresentamos.

Por todo o mundo, todos os anos ocorrem inúmeras descobertas. O potencial que cada uma destas descobertas encerra, seja em conhecimento científico no sentido mais puro do termo, seja no seu potencial de utilização pela humanidade, é imenso. Nuns casos concretizar-se-á, noutros não, mas a parte de conhecer mais um pedaço da maravilha que este planeta, em que habitamos, é, essa ninguém nos pode tirar.

Num país com uma enorme biodiversidade (pelo menos quando comparado com muitos dos seus parceiros europeus), característica ainda mais marcada se contarmos com o todo o potencial (e todo o desconhecimento) da parte do oceano pela qual somos responsáveis, é fácil chegar à conclusão que é estratégico para Portugal apostar na investigação sobre estas áreas de “desconhecido”.

Perante restrições, sempre presentes, na área da investigação, é óbvio que esse não pode ser o único caminho. Se nos centrarmos apenas na procura do novo, na exploração do desconhecido, é certo que deixaremos definhar e destruir aquilo sobre o qual já sabemos algo, mas que não conhecemos totalmente.

Como sempre, no equilíbrio é que está a virtude. Mas é importante que tenhamos presente que na biodiversidade a espécie humana tem uma aliada imprescindível à sua sobrevivência e à sua qualidade de vida. Num país em constante défice nestas áreas, talvez fosse ajuizado que os nossos decisores integrassem nas suas decisões alguma humildade sobre o que julgamos saber sobre a biodiversidade. Com demasiada frequência trabalhamos para compensar perdas de biodiversidade resultantes de más decisões políticas, sem respeitarmos e reconhecermos a nossa falta de conhecimento sobre a matéria.

Conhecer é um primeiro passo para valorizar e preservar (a velha máxima de que “só se cuida do que se conhece”), mas é fundamental que percebamos que o passo tem que ser dado. Conhecer deve poder contribuir para que possamos respeitar, mesmo ou principalmente, quando começamos ainda agora a levantar a ponta do véu.

João SoaresEng. agrónomo, assessor para a floresta e ambiente do grupo Portucel-Soporcel

Confesso que tenho uma visceral antipatia pelos “tudólogos” que infestam os nossos meios de comunicação social (em detrimento dos “especialistas”). Aquelas sumidades dão “palpites” sobre tudo e mais alguma coisa, com a desfaçatez da impunidade.

Não havendo contraditório e perante uma qualquer pergunta, não resistem a responder, inventando razões subjectivas para os seus palpites e fingindo ter bases ou (in)formação para a resposta/comentário que avançam.

Tudo isto para dizer que perante esta pergunta do PÚBLICO, me sinto, eu também, a entrar na esfera da “tudologia”...

É que, se por um lado, saber mais (e investigar) sobre novas espécies em Portugal é seguramente útil e importante, por outro, importa confrontar o desejo de investigar com as prioridades e os meios do país.

Julgo que investigar e, eventualmente, descobrir novas espécies não acrescenta valor intrínseco à biodiversidade e, provavelmente, apenas vai retirar do “recato social” espécies que, talvez por causa dele, têm sobrevivido a gerações e gerações de humanos mais ou menos predadores.

Sou da opinião (e cá está a minha derivação “tudológica”) que a investigação de novas espécies em Portugal, sem ser prioritária e justificar projectos de “per si”, deveria constituir um “plus” de todos os projectos de investigação no domínio da Ecologia e da Biologia que tenham uma forte e marcada componente “de campo”.

Não dispondo de informação suficiente para uma opinião devidamente fundamentada, imagino a dificuldade daqueles que têm por missão fazer escolhas sobre a forma como o (pouco) dinheiro destinado à investigação deve ser usado.

Mas acredito que uma investigação aplicada na melhor compreensão e defesa do que já conhecemos é mais útil (e prioritária) que o “desperdício” de meios na “descoberta” de algo que acarrete mais valias incertas e duvidosas.

O país (dos cidadãos às empresas), com os meios de que dispõe, precisa mais de saber conservar e “usar” o que conhece (e há aí muito espaço para a investigação) do que de descobrir “novas fronteiras” (por mais simpática e da moda que seja esta expressão).

Henrique Miguel PereiraEcólogo, investigador do Centro de Biologia Ambiental da Universidade de Lisboa

A investigação com o objectivo de descrever novas espécies deve ser uma das componentes de uma estratégia científica para o estudo da biodiversidade.

No entanto, penso que de uma forma geral, essa componente deve receber apenas uma muito pequena parte dos recursos humanos e financeiros possíveis, pois as questões mais urgentes e importantes neste momento não requerem a descrição de novas espécies.

Isto é particularmente verdade para os ecossistemas em relação aos quais já está descrita a grande maioria das espécies de animais e plantas, como é o caso da maior parte dos ecossistemas em Portugal.

Na minha opinião, as questões mais prioritárias estão relacionadas com o que está a acontecer à abundância e à distribuição das espécies devido às alterações globais, e questões sobre a relação entre a biodiversidade e o funcionamento dos ecossistemas.

Helena FreitasBióloga, directora do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra

Esta é uma questão pertinente, mas complexa. A minha resposta imediata é positiva; vale a pena apostar na investigação sobre novas espécies em todo o mundo e também em Portugal, porque conhecer a biodiversidade é um desafio científico permanente.

A par do fascínio que a novidade exerce sobre qualquer investigador, uma nova espécie representa sempre uma oportunidade para se colocarem novas questões científicas, igualmente fascinantes, como as questões relacionadas com o seu percurso evolutivo ou a relação com outras espécies.

Mas na formulação desta questão está implícita a dúvida sobre a justificação do financiamento público a esta área de investigação, quando, eventualmente, esta não é a prioridade para o cidadão comum. De facto, convergir o investimento público para áreas de interesse prioritário (por exemplo, as áreas de investigação em saúde) é uma decisão política legítima, que responderá ao desejo mais comum da sociedade e do próprio mercado. Mas a decisão política no domínio da ciência tem necessariamente que ver mais longe e ponderar outros valores e outros horizontes.

Conhecer uma nova espécie é também conhecer mais um elo da vida. O longo percurso de uma nova espécie acabará sempre por nos surpreender... pela singularidade da suas formas, pela perfeição das suas funções e, quem sabe, pela relevância escondida para a humanidade.

Miguel AraújoBiogeógrafo, titular da Cátedra de Biodiversidade Rui Nabeiro da Universidade de Évora

As espécies são a unidade fundamental de qualquer política de conservação da biodiversidade. São estas que são objecto de protecção na legislação nacional e internacional. São estas que estão na base da designação de muitas áreas de conservação, nomeadamente das áreas protegidas e da Rede Natura 2000.

E são estas que geram afectos por parte do público, designadamente dos mais jovens. Portanto, a descoberta de novas espécies, ou a reclassificação de espécies conhecidas em novas espécies, tem implicações importantes para a conservação.

Deverá ser dada prioridade à descoberta de novas espécies em Portugal? O termo prioridade implica urgência e urgência implica temporalidade. Nada pode ser urgente eternamente! Ora eu creio que a descoberta de novas espécies, incluindo o processo de reclassificação de espécies existentes, é um processo contínuo. Ao ser contínuo não é temporal e como tal não é prioritário. Porém, ao ser socialmente importante e condicionar grande parte da investigação realizada em ciências biológicas, o investimento em taxonomia e sistemática deveria constituir um elemento estrutural da política científica de qualquer país.